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(6/8) MUDAR EM PEQUENOS PASSOS OU DAR O GRANDE SALTO?

  • psiantoniovieira
  • 9 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 10 de abr. de 2025

(6/8) Qualquer transformação é o resultado de uma lenta germinação no nosso inconsciente...
(6/8) Qualquer transformação é o resultado de uma lenta germinação no nosso inconsciente...

"O grito vinha de longe, um murmúrio assombroso que eu não tinha escutado. É tão fácil enganar-se e dizer a si própria (o) que está tudo bem. Desta vez, pelo menos, não quis continuar a enganar-me…"  Anne Ducrocq (Changer le monde en se transformant, éd. Le Relié).


Às vezes, o primeiro sinal de mudança não é um estrondo, mas um sussurro. Como descreve Anne Ducrocq em "Changer le monde en se transformant" (éd. Le Relié), é fácil convencermo-nos de que está tudo bem, até que algo nos desperta — e escolhemos, finalmente, parar de nos enganar.


No processo de mudança, a questão do ritmo levanta-se frequentemente: devemos mudar devagar ou dar um salto audaz? Geneviève Lefebvre e Marthe Marandola, mediadoras e terapeutas, defendem que qualquer transformação, mesmo a mais repentina, resulta de um processo interno profundo e lento. No livro Le Déclic Libérateur (Marabout), mostram como a mudança nasce de um acúmulo silencioso no inconsciente, até ao momento em que uma frase, um encontro ou uma experiência se tornam em catalisadores — o famoso "clique".

O exemplo de Katia, que após vinte anos de abuso encontra a sua libertação ao ler uma simples frase num livro, é prova disso. Esse momento de viragem não apaga o passado — pelo contrário, é o culminar de anos de dor, reflexão e preparação invisível.


Mas num mundo onde mudar se tornou um imperativo social, quase moral, como advertem Marandola e Lefebvre, corremos o risco de nos perdermos numa corrida por uma felicidade idealizada e consumista. Há quem troque tudo de forma radical, na esperança de que uma nova vida resolva tudo. Contudo, uma mudança significativa nem sempre exige começar do zero. Às vezes, basta um reajuste onde já estamos.


Para que a mudança seja autêntica, precisamos honrar o nosso percurso. Como diz Lefebvre, evoluir não é amputar partes de nós, mas sim integrá-las — até as mais sombrias. Muitas vezes, o verdadeiro "clique" pode liberta-nos de padrões limitadores, ideias pré-concebidas e crenças e valores impostos desde cedo. Este despertar não é sempre grandioso: pode ser uma sucessão de pequenas percepções que, com o tempo, abrem espaço a uma nova forma de viver.


Uma das chaves está em permitir que o inconsciente participe — o que Jean Piaget chamou de "inconsciente cognitivo". Enquanto a mente consciente se fixa no problema, o inconsciente recolhe sinais subtis que podem provocar uma inversão de perspectiva, repentina. A neurociência também confirma: durante momentos de divagação, quando deixamos de "forçar" a resposta, abrimos espaço à criatividade e à verdadeira compreensão.


Mudar, para muitos, é também atravessar um deserto. Uma travessia solitária, como a "noite escura da alma" descrita por São João da Cruz, em que tudo parece desabar antes de renascer. Este processo, embora doloroso, é necessário para que o novo se instale permitindo-nos aceder a um novo lugar e perspectiva.


Cada pessoa tem o seu tempo. Para uns, a mudança é uma faísca que os move imediatamente. Para outros, é um amadurecimento demorado, que exige tempo, escuta e, algumas vezes, apoio terapêutico. Num mundo que valoriza a aceleração, é essencial lembrar que não há vergonha em precisar de tempo.


O verdadeiro tempo da mudança é pessoal — e sagrado.


Referências:

  • Ducrocq, A. (s.d.). Changer le monde en se transformant. Éditions Le Relié.

  • Marandola, M., & Lefebvre, G. (s.d.). Le Déclic Libérateur. Éditions Marabout.

  • Guérin, V., & Ferber, J. (s.d.). Le monde change... et nous ? Éditions Chronique Sociale.

  • Naik, A. (s.d.). Les Paresseuses changent de vie. Éditions Marabu.

  • Labonté, M.-L. (s.d.). Le point de rupture. Éditions Albin Michel.

 
 
 

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